 |
Veríssimo,
o filho, é um dos autores prediletos da noiva. É quase um
avô da
família e com seus conselhos ajudou a explicar o que se passa com
cada um
de nós no momento em que somos mais nós mesmos. Depois de
ler o texto, tivemos que
ir para Chartres. Não levitamos na igreja, mas nem precisava, naquela
altura cada um já tinha se mostrado sem disfarce, de forma autêntica,
como
adolescentes. E os vitrais da Catedral, além de arrancarem algumas
lágrimas da Bárbara, entraram para o rol de "souvenirs"
da nossa história.
Bárbara & Danilo
"Um homem só se conhece em duas situações:
quando está sob a ameaça de uma arma
ou quando quer conquistar uma mulher. Há quem diga que existe um
terceiro teste: como o homem reage diante de um vitral da catedral de
Chartres. Pode ter sido um materialista incréu a vida toda, mas
diante de um vitral da catedral de Chartres se descobre um místico
– ou não. Sei de céticos que, com certa luz do entardecer
batendo nos vitrais da catedral de Chartres, chegaram a levitar alguns
centímetros, até racionalizarem a situação
e voltarem para o chão. Mas só nos conhecemos, mesmo, na
frente de uma arma ou atrás de uma mulher.
Você pode argumentar que ambas são situações
de descontrole emocional. Errado: o descontrole é o homem. O controle
é o disfarce. Você deve se julgar pelo seu comportamento
quando enfrentou a possibilidade da morte ou quando estava a fim da (o
nome é hipotético) Gesileide. Aquela vez que você
se escondeu atrás de um poste para ver se ela chegava em casa com
alguém. Meia-noite e você atrás do poste, sob o
olhar curioso de cachorros e porteiros, fingindo que lia a lista do bicho
no escuro. Aquele imbecil – e não esse cidadão adulto,
respeitável, razoável, comedido, talvez até com títulos
– é você. Tudo o mais é a capa do imbecil essencial.
Tudo o mais é fingimento. Você nunca foi tão você
quanto atrás daquele poste.
Pense em tudo o que você já fez para conquistar
uma mulher. Os falsos encontros casuais, cuidadosamente arquitetados.
Os falsos telefonemas errados, só para ouvir a voz dela (“Telefonei
para você? Onde eu estou com a cabeça!”) As bobagens
que você disse, tentando impressioná-la. Pior, as bobagens
que você ensaiou em casa e disse como se tivesse pensado na hora.
O que você lhe escreveu, sem revisão ou autocrítica.
Aquele ridículo era você. Os dias e dias que você passou
só pensando nela. O país desse jeito, e você só
pensando nela. Sem dormir, pensando nela. Tanta coisa para fazer, e você
escrevendo o nome dela sem parar. Gesileide (digamos), Gesileide, Gesileide...
E as mentiras? E a vez que você inventou que era meio-primo do Julio
Iglesias?
E o que você sofreu quando parecia que não
ia dar certo? Como um adolescente. Aquele adolescente era você.
Isso que você é agora é o disfarce, é o imbecil
essencial em recesso provisório. Só o vexame é autêntico
num homem."
|
|
 |